Entrevista
Chrystel
Jubien e Fernando Costa : Você está presentando uma exposição
em homenagem a Paris e a fotografía. O que representa para você,
como fotógrafo, uma cidade como Paris ? Qual é a sua relação artística
com esta cidade ?
Nós
poetas precisamos de uma cidade como Paris para respirar… Aqui
eu estou no berço de cultura. Sinto-me muito à vontade, como se
estivesse em casa. Paris é a minha terceira cidade. A primeira
é o Rio de Janeiro, a segunda é Salvador e a terceira Paris. Profissionalmente
vim para acompanhar minha exposição na galeria Debret, particularmente
vim para matar as saudades de Paris e de algumas pessoas muito
especiais que só encontro por aqui…
C.J.
e F.C. : Há quanto tempo você conhece Paris ? E quantas vezes
você visitou a cidade ?
Conheço
Paris há vinte anos. Estive aqui, portanto, pela primeira vez,
em 1980. Depois em 1986, tive o imenso prazer de encontrar mestre
Robert Doisneau e posar para esta bela fotografia
ao lado dele. Voltei mais duas vezes. Esta é a quinta e não será
a última, se deus quiser. No outuno de 2001 voltarei para realizar
mais duas exposicões, uma na Casa França-Brasil, outra na Galeria
Philippe Gelot.
C.J.
e F.C. : Porque os fotógrafos em geral gostam tanto de Paris ?
Porque esta cidade possui a reputação de ser tão fotogênica ?
Paris
é tudo que um olhar "sedento" de poesia pode esperar. A paisagem
física da cidade é de uma beleza singular. O bom gosto reina por
toda parte. Há também este eterno cinza que traz calma e põe um
certo mistério no ar. A temperatura é ideal, principalmente no
outuno. Paris é irresistível… é como esta música que a pianista
do atelier ao lado esta tocando... é irresistível…
C.J.
e F.C. : Você é famoso no Brasil pela sua maestria no tratamento
das cores ! Porque você decidiu fotografar Paris em preto
e branco ?
Eu
não vejo a cor nesta cidade. Pra mim Paris é sobretudo essa nostalgia
doce do cinza, que evoca o passado dos meus grandes mestres :
Atget, Doisneau, Brassaï. No Brasil, ao contrario, onde o sol
é uma brasa imensa e as cores descem do céu como em torrente de
uma cachoeira, eu fotografo em cor.
C.J.
e F.C. : A luz é tão importante que ela influencia completamente
a inspiração de um artista…
Gauguin,
o famoso pintor francês, não teria feito historia se ele não tivesse
descoberto a Polinésia. Lá ele vui aquela vegetação exuberante
que alimentou sua imaginação fértil, aquelas formas e cores tão
diferentes das que seus olhas estavam habituados a ver na Europa,
onde ele não teria certamente conseguido desenvolver sua originalidade
poética. Monet, o grande impressionista, ao contrario, trabalha
as cores de forma comedida e discreta. Os verdes de Monet, pelo
cinza dos nuvens, são bem diferentes dos de Gauguin… As cores
explodem no sul.
C.J.
e F.C. : Como os fotógrafos franceses e brasileiros tem-se relacionado
ultimamente ? Há intercambio e confraternização entre eles ?
Muito
pouco… Na verdade não existe confraternização entre fotógrafos
franceses e brasileiros… é lamentável… mas há a esperança da globalização…
talvez os laços se apertem… talvez aprendamos a celebrar a biodiversidade.
C.J.
e F.C. : Qual a importância da arte fotográfica no Brasil ?Você
disse que a fotografia ainda não recebeu a consideração que merece
no seu pais. O que você pensa dos fotógrafos brasileiros ?
A
qualidade da fotografia no Brasil é muito boa. Os fotógrafos brasileiros
são intuitivos e corajosos. São também cada vez mais inventivos.
Mas as brasileiros em geral ainda não aprenderam a valorizar a
fotografia. Não da forma que ela merece.
C.J.
e F.C. : Você começou sua carreira de fotógrafo na imprensa, trabalhando
muitos anos para jornais e revistas brasileiros. Você é um autodidata.
A imprensa foi, de certo modo, a sua "escola". O que você acha
do fotojornalismo hoje em dia ?
O
fotojornalismo é a base da fotografia, porque é através do fotojornalismo
que o fotógrafo adquire uma certa maleabilidade, uma flexibilidade
mental que irá enriquecer o seu trabalho nos outros domínios da
fotografia : retrato, paisagem, publicidade ou moda. É por
isso que eu aconselho a todo jovem fotógrafo em inicio de carreira
a passar no mínimo cinco anos na escola fundamental do fotojornalismo.
C.J.
e F.C. : Você é contra a especialização…
Creio
que seja importante não só para o bem da qualidade da obra fotográfica,
mas também para a sanidade da vida íntima autoral, que o fotógrafo
realize um "passeio" pelos differentes temas fotográficos, em
vez de se fixar ao princípio num só. Variar é um dos maiores prazeres
humanos. Então porque não se exprimir hoje através da natureza
morta, amanhã da paisagem e por fim do nú ?
C.J.
e F.C. : O que que você acha da interação entre a fotografía e
as outras artes visuais ? A pintura e a cenografía por exemplo ?
Essa mistura lhe interessa ?
O
que ocorre é que tanto o fotógrafo busca inspiração nas artes
plásticas, como o artista plástico alicerca sua pesquisa na fotografia.
Havendo uma tendência cada vez maior para derrubar o "antigo muro
de Berlim" que separava a fotografia das artes plásticas. As "instalações
fotográficas", por exemplo, invadem cada vez mais as salas de
exposicões. Eu me sinto tentado a me aventurar nesses novos caminhos,
mas confesso que "sinto vergonha". No entanto quando minha exposição
sobre Paris começar a itinerar pelo Brasil, eu pretendo cobrir
o piso com umas folhas mortas caídas das árvores parisienses,
que eu recolhi para esta finalidade. Vou também exibir um vídeo
que eu mesmo fiz, mostrando alguns lugares onde os grandes mestres
que eu cito, viveram ou realizaram algumas das minhas fotos prediletas.
C.J.
e F.C. : A sua exposição sobre Paris vai circular também no Brasil.
Em quais cidades exatamente ?
São
Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Belém do Pará, a confirmar,
ao longo de 2001.
C.J.
e F.C. : Esse trabalho sobre os grandes "mestres" parisienses
era um projeto que você tinha concebido há muito tempo atrás ?
Não.
Esta ideía surgiu a partir do momento que eu soube que viria passar
seis meses na Cité des Arts em Paris, através do prêmio que o
banco Icatu me concedeu.
C.J.
e F.C. : Neste seu ensaio em homenagem aos grandes mestres, você
recriou artísticamente as célebres fotos que eles fizeram de Paris
ou fotografou diferentes cenas nos lugares que lembram imediatamente
tal imagem de Doisneau ou de Brassaï, por exemplo ?
Não
exatamente… Eu busquei nas cenas de rua, as imagens típicas dentro
do estílo de cada um dos fotógrafos que eu queria citar, a título
de homenagem… Eu me dizia esta aqui é um Doisneau, esta outra
um Brassaï, aquela outra um Atget… Encontrei inclusive algumas
Walter Firmo…
C.J.
e F.C. : No final das contas a cidade não mudou muito, já que
podemos reencontrar facilmente as imagems de então…
Não
há necessidade de destruir a memoria dos lugares para construir
a modernidade. Eu gosto de Paris, porque ela soube na medida do
possível conservar sua antiga fisionomia. Nova York e São Paulo
são, com relação a este aspecto um desastre. Cidades sem passado,
sem memória, desumanas, estéreis.
Entrevista
realizada em Paris por Chrystel
Jubien e
Fernando
Costa.